Para melhor compreendermos o uchinaguchi é importante situar Okinawa no contexto do arquipélago japonês e as razões históricas que levaram ao distanciamento entre o dialeto de Okinawa, derivado do proto-japonês, do japonês do restante do Japão.
Segundo o autor do livro “O Japão antes do Budismo”, J. Edward Kidder, no início dos tempos pré-históricos o Japão, constituído pelo arco de ilhas compreendido entre Curilas e Sakalina ao norte até as ilhas Léquios (Ryukyu) e Formosa ao sul, era um território que apresentava grande homogeneidade.
A Idade da Pedra abrangia do norte de Hokaido a Okinawa. Mas, no período da Idade do Bronze, uma cultura influenciada pelo uso de metais, embora não necessariamente de bronze, penetrou da parte norte de Honshu até Kyushu, sem, no entanto, ter atingido Okinawa.
Mais tarde, sob o domínio dos governantes proto-históricos da planície de Yamato, o exercício do poder tornou-se mais autoritário e centralizado, tendo daí resultado nova contração das fronteiras da cultura e o estabelecimento de uma esfera de soberania que viria a permanecer sem alteração durante séculos de história.
Ao longo desse período as diferenciações entre as raças em presença foram se acentuando e as linhas divisórias entre as diversas culturas tornaram-se cada vez mais nítidas. Esta área do Japão proto-histórico e histórico engloba as ilhas de Kyushu, Shikoku e parte de Honshu.
Daí a assertiva de José Yamashiro autor do livro “Okinawa uma ponte para o mundo” de que o povo de Okinawa pertence ao mesmo tronco étnico do japonês e seu dialeto é derivado do proto-japonês.
A maior parte das palavras do dialeto okinawano romanizadas pode ser lido como no estilo romanizado do japonês pelo sistema Hepburn, isto é, as consoantes têm mais ou menos os sons que tem em inglês e as vogais têm os sons aproximadamente do espanhol.
Como nem o inglês e nem o sistema Hepburn possuem uma consistente ferramenta ortográfica para escrever o som glotal encontrado em Okinawa, o mesmo deve ter um tratamento especial, o que será feito futuramente.
Por ora nos limitaremos a transcrever o sistema Hepburn como é grafada a maioria dos termos japoneses e do dialeto okinawano.
O sistema Hepburn que apresentamos abaixo foi extraído do Dicionário Português-Japonês Romanizado de Shigueru Sakane e Noemia Hinata, editado pela Casa Ono.
No sistema de escrita românica Hepburn, devemos observar, principalmente, a pronúncia das seguintes letras ou sílabas:
a. O "s" é sempre surdo, ainda que venha entre vogais. Ex.: asa (manhã) deve-se ler "assa" ou "aça" e não "aza".
b. O "r" é sempre vibrante alveolar (fraco), como em "caro" ou "parada", ainda que não venha em posição intervocálica. Ex. roba (mula), konran (confusão).
c. O "h" é sempre aspirado, como no português "hum-hã", ou no inglês "hungry".
d. O "g" é sempre oclusivo velar sonoro, como em "foguete" ou "guia" e nunca fricativo palatal sonoro , mesmo que venha imediatamente seguido das vogais "e" e "i". Ex. gimon (dúvida), geijutsu (arte). O mesmo acontecendo com gya, gyu, gyo.
e. O grupo "ch" será sempre africado sonoro, como no inglês "church" ou no italiano "cièlo", e nunca fricativo palatal surdo, o que será representado pelo grupo consonantal "sh".
f. As consoantes dobradas representam sons assimilados como acontece com o italiano ou latim. Ex.: das.suru (fugir), teppen (cume), em que há, em linhas gerais, um ligeiro fechamento, acompanhado de ligeira explosão. Por exceção, quando o grupo "ch" seria pronunciado como som assimilado , colocamos um "t" antes dele. Ex. matchi (fósforo), itchi (coincidência).
g. As vogais longas foram assimiladas com o sinal "-" . Ex. Tokyo, que deve ser pronunciado Tookyoo. Assim serão gravadas as vogais a-e-i-o-u , quando longas, com exceção do "i", que virá dobrado, no caso de ser longo. Ex. miito (carne).
h. Quando é preciso pronunciar-se o "n" separadamente de uma vogal ou de "h" ou "y", colocamos um apóstrofo entre eles. Ex.: man'in (cheio), hon'yaku (tradução), han'han (metade metade). Atenção: em "onna" (mulher), não colocamos o apóstrofo, pois, aqui, é regra geral pronunciar-se o-n-na. Nota: o som "n" foi sempre representado pela letra "n", mesmo antes do "b", "m", "p", fugindo à regra do sistema adotado. Ex.: shinbun (jornal), kanman (lentidão), denpo (telegrama).
i. Em morau (receber), deve-se pronunciar o "a" e "u", separadamente, pois não há ditongos. Assim também em hantai (contrário), o "n" constitui uma sílaba: há-n-ta-i.